A saúde mental, a autoconfiança e os desafios da liderança feminina estiveram no centro das reflexões da roda de conversa “Cuidar de Si para Liderar | Saúde mental, autoestima, produtividade e os desafios da mulher no trabalho”, realizada nesta quinta-feira (12), no auditório do Sebrae/ES. A iniciativa foi promovida pelo CRA-ES em conjunto com a Comissão ADM Mulher, Câmara de Recursos Humanos e CRA Educacional, em parceria com o Sebrae/ES.
O encontro reuniu especialistas, executivas e profissionais da Administração para discutir fatores que ainda afastam muitas mulheres de posições estratégicas nas organizações, entre eles a sobrecarga emocional, a baixa autoestima e a falta de apoio institucional. Mais do que um debate, o evento se consolidou como um espaço de escuta, troca de experiências e construção coletiva de caminhos para ambientes de trabalho mais humanos e inclusivos.
Reflexão sobre papéis e autocobrança
A primeira a falar foi a secretária de Estado das Mulheres e ex-vice-governadora do Espírito Santo, Jacqueline Moraes, que abriu a roda de conversa com uma reflexão sobre as múltiplas tarefas que recaem sobre as mulheres no cotidiano.
Durante sua participação, ela destacou a necessidade de desenvolver consciência sobre os limites da própria atuação. Segundo Jacqueline, é importante compreender que nem tudo precisa ser feito individualmente ou da maneira que cada pessoa imagina como ideal, abrindo espaço para colaboração e divisão de responsabilidades.
A secretária também chamou atenção para um aspecto cultural que impacta as relações entre mulheres. Em sua avaliação, muitas vezes as próprias mulheres acabam reproduzindo julgamentos e construindo imagens umas das outras que reforçam estereótipos e comportamentos que as mantêm presas a uma lógica permanente de cobrança e desempenho.
Liderança e representatividade
Na sequência, a conselheira e diretora do CRA-ES, Adm. Marília Tavares, trouxe dados que ajudam a dimensionar o cenário da liderança feminina no país.
“Hoje, as mulheres representam mais da metade das pessoas com ensino superior no Brasil. No entanto, quando olhamos para os cargos de liderança nas empresas, essa presença diminui significativamente. Em muitas organizações, menos de um terço das posições de liderança é ocupado por mulheres”, destacou.
Ela também chamou atenção para um comportamento recorrente identificado em pesquisas sobre carreira: “Enquanto muitos homens se candidatam a uma vaga mesmo quando atendem apenas parte dos requisitos, muitas mulheres só se sentem prontas quando acreditam cumprir praticamente todos os critérios. Ou seja, talento e competência existem, mas muitas vezes a autoconfiança não acompanha na mesma proporção”.
A administradora Valéria Aquino, coordenadora da Comissão ADM Mulher do CRA-ES, seguiu com o tom de abertura do encontro com um momento de inspiração e conduziu a roda de conversa como mediadora.
Liderança começa pelo propósito
A administradora Ioná Dias, vice-coordenadora da Câmara de Recursos Humanos do CRA-ES e especialista em mentoria de carreira, propôs reflexões com o tema “Mulheres no mercado de trabalho: propósito na prática da liderança”, conectando valores pessoais às ações de liderança no ambiente corporativo.
Para ela, liderança vai muito além do cargo ocupado. “Liderança não é cargo. É responsabilidade. A liderança demanda posicionamento, que vem com saber ter conversas difíceis e fazer gestão de consequências”, afirmou.
Ioná também destacou que o alinhamento entre propósito e atuação profissional influencia diretamente a saúde emocional das lideranças. “Quando você entende que existe propósito e se posiciona, você muda a cultura. Liderança requer humildade para entender, voltar e refazer a rota. Quando o cargo não está alinhado com o propósito, gera sobrecarga”, completou.
Empreendedorismo feminino e desafios estruturais
A gerente de Relações Institucionais e RelGov do Sebrae/ES, Alline Zanoni Rodrigues Batista, trouxe dados e análises no painel “Empreendedorismo Feminino: Força que Move o Mercado”, destacando o protagonismo crescente das mulheres no ecossistema empreendedor e os desafios que ainda marcam esse percurso.
Entre os pontos apresentados, Alline chamou atenção para as barreiras no acesso ao crédito. “As mulheres pagam mais juros na hora de empreender. Muitas começam por necessidade e sem planejamento. Com a desorganização financeira, acabam não atendendo aos critérios de avaliação dos bancos para conseguir empréstimos”, explicou.
Ela também ressaltou desigualdades no perfil das empreendedoras capixabas. Segundo os dados apresentados, 54% das mulheres no Espírito Santo são negras e chefes de domicílio, mas a renda média desse grupo é quase 50% menor que a das mulheres brancas. Outro dado relevante é que 50,5% das mulheres ainda empreendem na informalidade, muitas vezes sem tempo ou condições para planejar o negócio. “O sistema financeiro ainda percebe o negócio liderado por mulheres como de maior risco”, observou.
Bastidores da carreira executiva
A trajetória profissional e os desafios da liderança feminina também foram abordados pela administradora Fabiana Vieira, diretora de Gente e Gestão no Grupo Coutinho e vice-presidente do Conselho Deliberativo da ABRH-ES. Em sua fala sobre “A mulher por trás do cargo: trajetória, desafios e aprendizados”, ela compartilhou reflexões sobre construção de carreira e resiliência. “A trajetória de crescimento exige muito, exige muita construção. Quando vamos fazer investimento queremos um retorno. Árvore nenhuma se sustenta sem raiz”, comparou.
Para a executiva, os papéis sociais e profissionais representam apenas a face visível de uma jornada muito mais profunda. “Os papéis são a parte visível da nossa vida”, afirmou.
Sucesso além dos padrões
A psicóloga e HR Business Partner da Vale, Gisele Queiroz, ampliou o debate ao abordar o tema “Carreira e identidade: sucesso além dos padrões”, convidando o público a refletir sobre os critérios que utilizamos para medir realização profissional.
“Pensar a carreira e a identidade é muito importante. A ideia de sucesso que temos em nós precisa ser avaliada”, afirmou. Segundo ela, muitos parâmetros utilizados socialmente como renda mensal, lugar onde se mora, roupas ou escola dos filhos acabam se tornando indicadores superficiais de sucesso. “Esses parâmetros são rasos, vemos apenas pela superfície. O risco é confundir o que a gente faz, o que a gente tem com aquilo que a gente é”, alertou.
Inteligência emocional e saúde mental
Encerrando a roda de conversa, a psicóloga e neuropsicóloga Lucinéia Pesente, mestre em Saúde Mental, abordou o tema “Inteligência Emocional e Saúde Mental da Mulher”, reforçando que o equilíbrio emocional é resultado de múltiplos fatores. “Muitos fatores influenciam nossa saúde mental. O que faz uma pessoa lidar melhor com as dificuldades da vida envolve diversas variáveis”, explicou.
Entre elas, estão tanto as condições de trabalho quanto os aspectos individuais, que influenciam diretamente a forma como cada pessoa enfrenta desafios e pressões do cotidiano profissional.
Ao longo do encontro, as diferentes falas convergiram para um ponto comum: liderar exige, antes de tudo, cuidar de si. Ao promover um espaço de diálogo sobre saúde mental, propósito e trajetória profissional, o CRA-ES reforça a importância de ampliar o debate sobre liderança feminina a partir de uma perspectiva mais humana, em que desempenho e bem-estar caminham juntos.
Jornalista Márcia Menezes | Assessora de comunicação
