No encerramento do II Fórum Capixaba de Administração, Idalberto e Lucas Chiavenato destacaram que tecnologia pode ampliar a capacidade de análise, mas decisão e responsabilidade continuam sendo humanas
“Como organizar o esforço humano e os recursos para alcançar os objetivos?” A pergunta atravessa décadas de estudos da Administração e continua atual, mesmo diante de uma realidade em que dados, inteligência artificial e novas tecnologias transformam a forma como as organizações trabalham. Foi a partir dessa reflexão que o Adm. Idalberto Chiavenato e o Adm. Lucas Chiavenato conduziram a palestra de encerramento do II Fórum Capixaba de Administração, promovido pelo CRA-ES nesta quinta-feira (17), em Vitória.
Com o tema “Administração, Pessoas e Decisão na Era da Inteligência Ampliada”, os dois discutiram como a profissão pode incorporar as novas tecnologias sem perder aquilo que está no centro da Administração: a capacidade humana de interpretar contextos, fazer escolhas e assumir responsabilidades.
A Administração muda, mas a pergunta permanece
Ao abrir a palestra, Idalberto Chiavenato destacou que a Administração é construída em camadas. Ao longo das gerações, novos conhecimentos e ferramentas foram incorporados sem que as abordagens anteriores deixassem de ter valor. “Não existe uma única maneira melhor de administrar. Tudo depende do contexto”, explicou.
Para ele, a transformação tecnológica amplia o alcance da capacidade humana, mas não elimina a necessidade de método. A chamada inteligência ampliada representa justamente essa possibilidade de utilizar a tecnologia para expandir a capacidade cognitiva do profissional.
A diferença, segundo Chiavenato, está na velocidade e na relação cada vez mais próxima entre pessoas e ferramentas tecnológicas. Se tecnologias do passado apenas auxiliavam o trabalho humano, as ferramentas atuais são capazes de analisar informações, gerar conteúdos e apoiar processos decisórios. “Cabe ao profissional da Administração decidir com método e responsabilidade”, destacou.
Decidir continua sendo um ato humano
Lucas Chiavenato aprofundou a discussão ao tratar da quantidade de dados disponível atualmente. Ter mais informações, segundo ele, não significa automaticamente tomar decisões melhores. Os dados ampliam as possibilidades de análise e permitem conhecer diferentes cenários, mas não eliminam a necessidade de julgamento. “O que temos visto, e o que o Idalberto reforçou, é que decidir é talvez o ato mais humano da Administração”, afirmou.
Nesse contexto, entregar à inteligência artificial a decisão final pode representar um dos principais riscos da adoção indiscriminada da tecnologia. A IA pode apoiar a análise, identificar padrões e apresentar possibilidades, mas questões que dependem de contexto, julgamento e responsabilidade precisam permanecer sob condução humana.
Lucas apresentou ainda a metodologia Pessoas, Cultura e Tecnologia (PCT) como uma referência para pensar a gestão na era da inteligência ampliada. Os três elementos precisam ser considerados conjuntamente para que a tecnologia seja incorporada de maneira coerente às organizações.
A proposta é ir além do uso da ferramenta pela ferramenta. Antes de implementar uma tecnologia, o profissional da administração precisa compreender o problema que deseja resolver, avaliar a cultura da organização, preparar as pessoas e definir como aquela solução será integrada aos processos.
Tecnologia com método, não por modismo
Os palestrantes também chamaram atenção para os chamados modismos gerenciais. Para Lucas, uma das formas de evitar decisões baseadas apenas na novidade é trabalhar com método. A tecnologia pode assumir etapas analíticas e ampliar a capacidade de processamento de informações. Porém, quanto mais próximo o processo estiver da decisão, maior deve ser a presença humana.
Essa lógica também se aplica à gestão de pessoas. As transformações no mundo do trabalho são contínuas e exigem profissionais capazes de se adaptar, compreender novas ferramentas e, ao mesmo tempo, preservar critérios éticos.
Entre as recomendações apresentadas está a criação de políticas internas para o uso da inteligência artificial, construídas por grupos multidisciplinares dentro das organizações. A proposta é estabelecer critérios para orientar o uso da tecnologia e definir responsabilidades.
A Administração diante de uma nova camada
A participação de Idalberto e Lucas Chiavenato encerrou o II Fórum Capixaba de Administração retomando uma questão que atravessou toda a programação: a tecnologia está mudando a forma de trabalhar, mas não elimina a necessidade de administrar.
A inteligência ampliada pode aumentar a capacidade de análise e apoiar o profissional diante de um volume de informações cada vez maior. O desafio da Administração está em transformar esse potencial em decisões responsáveis, considerando pessoas, cultura, contexto e objetivos.
Afinal, como resumiu Idalberto Chiavenato, a pergunta permanece a mesma. O que muda, a cada época, são as respostas.
Jornalista Márcia Menezes | Assessora de comunicação
